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Segredo dos Livros


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Não Se Escolhe Quem Se Ama PDF Imprimir e-mail
Escrito por Fátima Rodrigues   
19-Mar-2008

ImageAutor: Joana Miranda
Editor: Editorial Presença
Colecção: Grandes Narrativas
ISBN: 9789722331500
Ano de Edição/ Reimpressão: 2004
N.º de Páginas: 208
Encadernação: Capa mole
Dimensões: 15 x 23 cm

Matilde tinha uns olhos escuros, brilhantes, profundos como a noite. O cabelo, da cor das Deusas do Olimpo. As asas, de ouro, bordadas a fios de seda. Os pensamentos, povoados de sonhos. O desejo, incandescente, de voar, de rasgar, horizontes cada vez mais altos. Matilde, como Ícaro, era dotada de asas, e como Ícaro, por inusitada coragem, experimentou a dor de chegar perto do sol. Do mesmo Sol que dá a vida, e que a tira. Viveria tudo outra vez. Exactamente da mesma forma. Não trocaria o que viveu com Vladimir Krapov por nenhuma outra existência do fogo que sempre queima as asas que ousam desafiar as leis do universo e da vida. A sua luz era tão intensa que Matilde duvidava não ser ela própria criação daquele moscovita de quarenta e cinco anos que um dia lhe arrebatou a alma.

Actualmente na 5ª Edição.

Alguns extractos do livro para vos aguçar a curiosidade:

Doroteia ficou com os nervos em franja desde que os primeiros habitantes se mudaram para o Restelo, e quase enlouqueceu quando deparou com os seus canteiros de gladíolos a serem debicados pelas aves. Soltou um grito estridente, que despertou Salvador da sua sesta habitual e o deixou de coração descompassado. Seguiu-se um encontro de inimigos, que poderia inspirar um filme épico, e Salvador, perfeitamente exausto, após quatro intensas horas de gritaria selvática, acedeu em comprar uma rede para vedar o seu espaço e separá-lo do espaço da sua "vizinha". As aves enlouqueciam Doroteia, que não tinha particular apreço por animais. Sentia-se lesada e começou a conjecturar uma forma de retribuir a Salvador o barulho das suas aves. Decidiu comprar um papagaio jovem, que o dono assegurou ser detentor de uma inteligência rara e, com a paciência de um santo, começou a ensinar-lhe algumas palavras e expressões. Baptizou-o de "Zacarias", colocou, ardilosamente, o seu poleiro dourado num canto da cozinha e, ao fim de algum tempo, conseguiu que ele vociferasse em tom esganiçado a expressão "Às armas". A primeira vez que Salvador deparou com o pássaro na cozinha, o animal fitou-o com um ar que Salvador interpretou como sendo de gozo. O animal observava-o de lado, com o pescoço todo retorcido e um olho fechado. Doroteia cantarolava em voz baixa, enquanto lavava a cozinha com uma esfregona, aparentemente alheada do encontro entre Salvador e o pássaro. Salvador iniciou a confecção do seu pequeno almoço, esforçando-se por não tecer qualquer espécie de comentário. Só falava com Doroteia em situações de absoluta necessidade. Era isso que estava acordado desde o primeiro dia de coabitação, apesar das contínuas partilhas de tudo implicarem mais palavras do que ambos teriam desejado. O papagaio insistia em observá-lo de uma forma que Salvador interpretava de irónica e pouco amigável, e, no preciso momento em que Salvador vertia o leite do fervedor para a sua caneca, o pássaro gritou, num esgar irritadiço: -Às armas! (pp.9)
 

 

 Zapping com o comando do televisor. Telenovelas em todos os canais. Matilde apaga o televisor e liga o portátil. Não consegue ligação à net. Irritada, sai para o jardim, de onde se avista uma pequena, e por isso mesmo valiosíssima, franja de Tejo. Contempla o rio. Apetece-lhe partir para longe num qualquer bote velho ancorado no cais. A casa, enredada em teias densas de memórias, tem o condão, o estranho poder de intensificar todos os seus sentimentos de fuga e de independência. Nesse Outono do ano de 2002, com a queda das folhas e o partir das aves migratórias, nesse Outono mais do que nunca, apetece-lhe partir. Partir para países ainda mais frios e ainda mais tristes. A luz desse Outono é excessivamente intensa para si, para a dor mansa que lhe envolve a alma. Partir sem destino marcado, partir com as garças, com desprendimento. Largar tudo, também não significa largar grande coisa. Largar o Martim e o tio Salvador. Está convicta de que poderiam perfeitamente sobreviver sem ela. De resto, sente que, em cada dia que passa, lhes faz menos falta, de que, cada um à sua maneira, vão ganhando asinhas ágeis e desenvoltas e de que iniciam voos solitários, trajectos celestes que dispensam a companhia de mães galinhas ou de sobrinhas galinhas. Se o Vasco partisse, se voasse, aí sim, o Martim ressentir-se-ia com a ausência da célebre figura paterna, tão amplamente estudada por psiquiatras e afins. Faltar-lhe-ia o eterno companheiro do ténis e do squash. Do amigão, do herói. Se o Vasco partisse… Disparate! O Vasco partir. Partir para onde? O Vasco nunca partiria, porque o Vasco é daquelas pessoas que nunca partem. Sentem que estão bem como estão e que nada lhes faz falta. Precisamente o seu oposto. A si, o seu pai faz-lhe falta. (p.30)
 

 

 Às vinte e uma horas em ponto, a Marinela batia à porta e o puxador de latão, com a forma de cabeça de ganso, rodava, deixando antever o seu vulto rechonchudo e o seu sorriso cúmplice. Depositava, com cuidado, o tabuleiro de madeira, coberto com paninhos de renda, em cima da mesinha de canto e retirava-se, em pezinhos de lã, com um doce "boa-noite". Sentavam-se, então, mãe e filha, nas duas poltronas de veludo cerise, que ladeavam a mesinha, e preparavam-se, com uma certa cerimónia e solenidade exacerbadas, para bebericar os chás de ervas. Mary-Anne, como qualquer escocesa típica, bebia chá em vários momentos do dia. Os sabores dos chás variavam de dia para dia, introduzindo no ritual uma subtil nota de variação. Tília, hortelã-pimenta, camomila, malva, entre outros sabores, invariavelmente servidos em chávenas de porcelana de fundo azul escuro e pétalas de malmequeres doirados. Um torrão de açúcar para a mãe e dois para Matilde, gulosa desde o início dos tempos. A acompanhar o chá, um prato de cristal de Murano repleto de biscoitos de amêndoa, de doces de gila ou de enormes fatias de bolos caseiros, confeccionados no próprio dia, expressamente para o acontecimento. Ainda hoje Matilde cumpre, religiosamente, o ritual do chá, independentemente do local em que se encontre. Para o hospital levou uma cafeteira eléctrica, chávenas e pires, cubos de açúcar e caixinhas com chás de diferentes sabores. Toda a ala de pediatria adoptou o ritual e é frequente que médicos e enfermeiras transportem chávenas de sala em sala. Após o saborear do chá, as bocas delicadamente secas nos guardanapos de linho fino, ornamentados de rendas de bilros e a escovagem dos dentes, em movimentos planeados ao milímetro, de acordo com as regras vigentes: “Movimentos ritmados para cima e para baixo”, “Não esquecer nenhum dente” ou "bochechar duas vezes". E Matilde seguia as regras, sem discutir, sem ousar questionar a sapiência das pequenas ordens da mãe, ordens que lhe davam a certeza do mundo ser um lugar ordenado e definido. Este ritual de escovagem dos dentes terá, decerto, determinado a sua obsessão por este assunto e os cuidados que tem a este nível com os seus pequenos doentes. Subia, então, para a cama, que nos primeiros tempos se lhe afigurava muito, muito alta e que, mais tarde, julgou passar a ter uma altura mais consonante com o seu tamanho. Chinelos de veludo juntos, no tapete ao lado da cama, juntos para mais facilmente se encontrarem à noite, caso surgisse a necessidade de ir até à casa de banho contígua ao quarto, juntos porque a lógica da arrumação dos objectos do mundo assim o exigia. Trepava, pois, para a cama, a pequena Matilde, em alvoroço interior. Sensação sublime, de que se recorda com a nitidez de um acontecimento de ontem. O colchão exibia uma consistência perfeita, nem demasiado duro nem demasiado mole, moldando-se, na perfeição, aos contornos do seu corpo, como se com base neles tivesse sido feito. Os lençóis de linho ou algodão brancos, bordados, de folhos ou rendas, cobriam-na com a doçura do chantilly espalhado sobre a massa tenra de um bolo acabado de sair do forno. Sentia-se a flutuar em nuvens de algodão doce. No Inverno, os edredões quentes e saborosos envolviam-na e protegiam-na do cair da chuva lá fora. A mãe lia-lhe livros. Os seus livros de contos escoceses ou poemas de Pessoa, Espanca ou Pablo Neruda. Em escocês ou em inglês. Shakespeare. Sabe de cor muitos versos, de cor como se tivesse nascido a sabê-los. Ainda hoje estranha que as outras pessoas os não saibam como ela os sabe. A mãe soletrava as palavras, a sua voz baixa e doce, aveludada, que lhe acariciava os sentidos e a envolvia numa onda de prazer tépido e de infindo bem-estar. Ainda hoje, quando cerra as pálpebras, escuta os sussurros das suas sílabas acariciarem os seus ouvidos e, em asas de filigrana de oiro, transportarem-na para mundos outros, em que o céu é transparente e a terra forrada a papoilas vermelhas, ondulantes sob um sol de Marte. Mary-Anne adormecia levemente, com os livros seguros nas mãos esguias e alvas, em que se recortavam veias muito azuis, quais riachos serpenteando por entre mantos de neve. Então, com muito cuidado, Matilde, retirava-lhe o livro de entre os dedos, marcava a página com um marcador com miosótis bordado a matiz, depositava-lhe um beijo na testa, como se de um anjo se tratasse. Cobria-lhe o corpo com os lençóis e adormecia bem perto ao calor que exalava do seu corpo alvo e esguio, em tudo semelhante ao de uma princesa das neves das histórias de encantar. O seu respirar leve e doce, como o de uma criança, transportava-a, lentamente, para o reino dos sonhos cor-de-rosa, para o reino em que a mãe teimava habitar, mesmo quando acordada. (p.139)   
 

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