Nenhum Olhar

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Autor:
José Luís Peixoto
Edição: 2010 (8ª Edição)
Páginas: 224
ISBN: 9789897220326
Editora: Quetzal Editores

 

 

Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo.

As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade.«... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»

Autor:

José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, concelho de Ponte de Sôr.
É um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias, traduzidas num vasto número de idiomas, e é estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras.
Em 2001, acompanhando um imenso reconhecimento da crítica e do público, foi atribuído o Prémio Literário José Saramago ao romance Nenhum Olhar. Em 2007, Cemitério de Pianos recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha. Com Livro, venceu o prémio Libro d'Europa, atribuído em Itália ao melhor romance europeu publicado no ano anterior. As suas obras foram ainda finalistas de prémios internacionais como o Femina (França), Impac Dublin (Irlanda) ou o Portugal Telecom (Brasil). Na poesia, o livro Gaveta de Papéis recebeu o Prémio Daniel Faria e A Criança em Ruínas recebeu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2012, publicou Dentro do Segredo, Uma viagem na Coreia do Norte, a sua primeira incursão na literatura de viagens. Os seus romances estão traduzidos em mais de trinta idiomas.

Comentários  

 
#3 Frederico Ferreira 2020-04-09 08:06
Gostei da análise do Sebastião Barata.
 
 
#2 Sebastião Barata 2015-04-25 22:38
Nenhum Olhar é um dos livros mais antigos de José Luís Peixoto, mas talvez um dos mais editados em Portugal e traduzidos para outras línguas. O Prémio Saramago com que foi galardoado tem que ver com isso, mas não só... É que se trata mesmo de um livro muito bom. Não é fácil de ler, mas vale bem o esforço.

O cenário é o Alentejo e as personagens são os alentejanos pobres e explorados, os"servos da gleba" do século XX, agarrados à terra que os viu nascer, sofrer e morrer. Mas não é só a pobreza material; é a pobreza moral e psicológica. É o analfabetismo, o alcoolismo, as crendices, os ciúmes, os estigmas sociais, o peso do pecado. Como escreveu o autor na magnífica dedicatória com que me brindou, este é um "romance feito de terra e céu, habitado por homens e mulheres, anjos e demónios".

As personagens são inesquecíveis: o José, pastor, taciturno e enganado; os irmãos siameses Moisés e Elias, lagareiros, que nasceram, viveram e morreram juntos; mestre Rafael, carpinteiro, maneta e perneta do lado direito; a cozinheira obcecada que fazia obras de arte culinária; o velho Gabriel de que já ninguém sabia dizer a idade (seria um anjo?)... E havia a venda do judas, a prostituta cega, o demónio tentador e a morte sempre à espreita. Havia ainda uma enigmática personagem que vivia fechado numa casa sem janelas e escrevia, escrevia, escrevia continuamente.

Todas as personagens são narradores, incluindo o escritor que ninguém vê. Todo o livro é escrito em discurso direto e passa rapida e frequentemente de um para outro. A mesma história é, por vezes, narrada sob vários prismas, consoante quem a conta. As personagens quase não falam; as suas narrativas são pensamentos que sublimam a sua falta de diálogo. Diz-se que os alentejanos são muito calados e pensativos. Toda a trama deste livro é um perfeito espelho desta caraterística. Muitos problemas entre casais e tragédias que ocorreram poderiam ter sido evitadas se as personagens falassem, dialogassem, discutissem, se agredissem ou ofendessem verbalmente. Mas não. Cada um remoía nos seus pensamentos, chegava a conclusões infundadas e agia da pior forma. Será esta uma consequência de muitas gerações de opressão sobre um povo simples e pacífico, explorado ao longo dos séculos pelos proprietários da terra?

Os nomes e as caraterísticas das personagem não são fruto do acaso. Todos eles têm um significado simbólico: os profetas Moisés e Elias, ligados entre si; José, o marido enganado; o "gigante" que desonrava as mulheres casadas; o demónio que pagava copos na venda e "soprava" desgraças aos ouvidos dos infelizes; os anjos Rafael, o carpinteiro caridoso, e Gabriel, o bom conselheiro; Judas o taberneiro que afogava consciências no álcool. E mulheres? Neste mundo de homens, não há espaço para nomes de mulher: é a menina, a rapariga, a mulher, a puta, a cozinheira, a criada... Nomes não têm: é a filha de..., a mulher de..., a mãe de..., a irmã de...

A constante mudança de narrador dificulta a compreensão dos acontecimentos que se vão sucedendo a grande ritmo e exige uma maior atenção e concentração do leitor, sobretudo no início. Mas, à medida que vamos conhecendo as personagens, as suas motivações e o seu passado, começa a ser mais fácil reconhecer de imediato quem nos está a "falar" em cada momento.

Um excelente livro que continua atual, infelizmente.
 
 
+1 #1 sonia areia 2010-04-18 18:45
Um livro marcante, o qual tem de ser obrigatório na minha biblioteca. Não se trata de uma leitura fácil, exige toda a atenção do leitor. Mas de uma profundidade a que o autor já nos habituou.
Um livro a ler.
 

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Uma Pequena Palavra...

"O Homem e o escritor são a mesma pessoa. Mas este facto constitui a maior descoberta de um escritor. Precisei de muito tempo - e de quantas páginas escritas! - para chegar a essa síntese."
V.S.Naipaul, in O Enigma da Chegada.