O Ano da Morte de Ricardo Reis

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Autor: José Saramago
Género: Romance
Edição: Ago/2017
Páginas: 496
ISBN: 9789720048820
Editora: Porto Editora

 

 

Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas.
Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de dezembro de 1935. Fica até setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E um movimento inverso, logo a começar: «Aqui onde o mar se acaba e a terra principia»; o virar ao contrário o verso de Camões: «Onde a terra acaba e o mar começa.» Em Camões, o movimento é da terra para o mar; no livro de Saramago temos Ricardo Reis a regressar a Portugal por mar. É substituído o movimento épico da partida.

Mais uma vez, a história na escrita de Saramago. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.

Caligrafia da capa por Carlos Reis.

Deste autor no segredo dos Livros:
Claraboia
Caim
O lagarto

Autor:

José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário. Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, sendo autor de mais de 40 obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2017-09-25 15:19
Há dias, em conversa com um amigo, quando lhe disse que estava a começar a ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis", este replicou que tinha sido o livro de José Saramago de que menos gostara, porque o achou muito repetitivo e com uma história que não avançava, acabando por ser uma leitura cansativa. Agora que o acabei de ler, não tenho a mesma opinião.

Todos sabemos que Ricardo Reis era um dos heterónimos mais ativos de Fernando Pessoa. Era médico e poeta, e tinha sido "enviado" pelo seu criador para o Brasil. Sucede que, 16 anos depois desse facto, Fernando Pessoa morre. O primeiro ponto de interesse deste livro é Saramago ter pensado se, com a morte do original, as personagens fictícias poderão continuar a existir. À primeira vista, tal não é possível. Mas a imaginação sublime do nosso Nobel não desistiu e resolveu imaginar uma vida de Ricardo Reis para além da morte.

Sendo Saramago ateu, tal vida só podia ser na Terra, em Portugal e nos espaços mais queridos de Fernando Pessoa. É assim que faz Ricardo Reis regressar a Portugal logo que tem conhecimento da morte do seu original e cria-lhe uma vida fantástica (no sentido de fantasia), em que ele se passeia pelas ruas de Lisboa, desde o Cemitério dos Prazeres onde Pessoa está sepultado, até à Baixa, passando pelo Chiado e o Cais do Sodré. São os lugares da vida e da morte de Fernando Pessoa. Encontra-se várias vezes com ele durante perto de um ano e falam de coisas que só os mortos e os vivos podem partilhar. Até que, como não podia deixar de ser, um dia parte de vez com o seu criador. Não me acusem de estar a fazer spoiler, pois foi o próprio autor que chamou ao livro "O ano da morte de Ricardo Reis"...

Como se vê, este livro é mais uma incursão de Saramago no mundo do romance histórico, como ele sabia fazer tão bem. Fez-me lembrar a "História do Cerco de Lisboa", outro seu romance em que coloca uma personagem a percorrer bairros históricos da nossa linda capital, neste caso a Mouraria e o Castelo. Descreve os percursos com uma realidade tal que o leitor (sobretudo se, como eu, os conhece) se imagina ao lado da personagem. Já agora, aproveito para sugerir à Fundação Saramago e à Porto Editora a realização de passeios temáticos pelas ruas, becos e ruelas descritos nestes dois livros. Certamente que os leitores e admiradores de Saramago adeririam a esses passeios.

Como romance histórico que é, este livro situa-nos na época da morte de Fernando Pessoa, em finais de 1935. A revolução de 28 de maio tinha sido há alguns anos, Salazar já tinha agarrado as rédeas do poder e a ditadura do Estado Novo estendia os seus tentáculos a todas as áreas da Nação. A Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa começavam a ser uma realidade (Ricardo Reis até vai ao Campo Pequeno assistir a uma apresentação de Associações semelhantes de países "amigos"...). A Polícia Política era já o grande suporte do regime e ninguém lhe escapava, como, por exemplo, alguém que apareceu de repente em Lisboa, se passeava pela cidade, aparentava não ter ocupação e metia o nariz em toda a parte, como era o caso de Ricardo Reis. Além disso, havia a guerra em Espanha com as forças de Franco a ganhar força, o crescimento do fascismo na Alemanha e do marxismo na URSS. O perigo de uma confrontação em larga escala era cada vez mais uma probabilidade.

Tudo isto aparece neste romance, descrito ao estilo bem conhecido de José Saramago, que vai introduzindo os acontecimentos ao correr da pena, como por acaso e à medida que calha virem a propósito de qualquer banalidade. O seu jeito irónico para ridicularizar aquilo com que não concorda também está presente neste livro, como seria de esperar.

PS: Tenho visto nos últimos tempos este livro atingir os primeiros lugares nos top's de vendas das livrarias. Também tenho lido que as escolas estão a programar este livro para leitura obrigatória para os alunos do 12º ano no corrente ano letivo. Certamente que ambos os factos estão relacionados. Se este meu comentário puder incentivar algum aluno a lê-lo com mais prazer, já valeu a pena.
 

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