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O Chalet da Memória
Segunda, 14 Novembro 2011 18:25

Autor: Tony Judt
Edição: Out/2011
Páginas: 220
ISBN: 9789724416632
Editora: Edições 70

Esta obra resulta das memórias de Judt escritas durante o período da sua doença, memórias "arrumadas" pelo autor como os diversos quartos de um chalet suíço que visitara em criança.
Os pequenos ensaios que compõem esta obra evocam assim as experiências de infância e o crescimento intelectual de Judt. Contudo, sendo pessoais, estes ensaios não deixam de veicular as firmes convicções do autor sobre política, história e cultura.
Judt escreve com a clarividência intelectual e com o estilo polido que o carateriza, mas dando agora a perceber a nítida consciência da passagem do tempo e da sua inegável mortalidade.

 

«Já doente há uns meses, percebi que, durante a noite, escrevia histórias completas na minha cabeça. Não há dúvida de que procurava o esquecimento, e trocava a contagem de carneiros pela complexidade narrativa, com o mesmo efeito. Mas durante estes pequenos exercícios, percebi que estava a reconstruir – como se fosse um lego – segmentos entrelaçados do meu próprio passado que antes nunca pensara que estivessem relacionados. Em si mesmo, isto não era grande feito: os fluxos de consciência que me levavam de um motor a vapor para a minha aula de alemão, das linhas de autocarro de Londres cuidadosamente traçadas à história do planeamento urbano do período entre guerras – eram suficientemente fáceis de lavrar e, por isso, seguiam em todo o tipo de direções interessantes. Mas como conseguiria eu recuperar no dia seguinte esses sulcos meio enterrados?» Tony Judt

“O Tony foi um lutador e combateu a sua doença com toda a força e determinação. ‘Mas o inferno não é uma experiência transmissível’, disse. Então o melhor é falar de outras coisas: amigos, bêtes noires, política, livros.”
Timothy Garton Ash – The New York Review of Books

Autor:
Nascido na Grã-Bretanha numa família de imigrantes judeus, Tony Judt instalou-se nos Estados Unidos depois de fazer estudos em Cambridge e na École Normale Supérieure, especializando-se na história da Esquerda francesa.
Era professor na New York University, quando, em Março de 2008, lhe foi diagnosticada a doença de Lou Gehrig, uma variante de esclerose lateral amiotrófica, progressivamente incapacitante. Faleceu dessa doença no verão de 2010.
Autor de obras como "A Reconstrução do Partido Socialista: 1921-1926" (1976), recebeu em 2008 o Prémio do Livro Europeu pelo livro "Pós-Guerra -- História da Europa desde 1945", publicado em Portugal pelas Edições 70, tal como "O Século XX Esquecido".
Em tempos idos um fervoroso defensor de Israel, Judt afastou-se do sionismo e sustentou que a auto-definição de Israel como Estado Judaico faz dele "um anacronismo".

Actualizado em Segunda, 06 Fevereiro 2012 10:12
 

Comentários  

 
0 #2 Catia Silva 20-01-2012 12:59
Este pequeno livro do escritor Tony Judt conta-nos as memórias de quando era pequeno e teve que sobreviver à austeridade imposta pela 2ª Guerra Mundial. Dá-nos também a sua opinião sobre o desenvolvimento da linguagem escrita atual dos jovens, devido às novas tecnologias, bem como a utilização das abreviaturas de escrita nos envios de mensagens e no facebook.
Devido a complicações da sua doença (esclerose lateral amiotrófica), Judt perdeu os movimentos do pescoço para baixo, obrigando-o a ficar imobilizado, impedimento que o levou a analisar todo o seu passado e as memórias da sua vida, que conta neste livro. Foi uma análise profunda que o levou a recordar-se, por exemplo, dos cheiros que encontrava na rota que fazia no autocarro da sua casa até à outra ponta de Londres.
Na minha opinião, o facto de o escritor ter perdido a mobilidade e o sentido do tato levou-o, nas longas noites de imobilidade, a recordar como havia vivido a sua vida, quando ainda não lhe havia sido diagnosticada a doença.
 
 
+1 #1 Fátima Rodrigues 17-11-2011 09:06
Uma das temáticas mais exploradas pelo homem ao longo da sua história é a morte.

A interrogação inquietante enquanto estado permanente, a aceitação de algo que nos esvazia de seres pensantes e dotados desse processo maravilhoso que é saber comunicar. Graças a ele, passamos o nosso conhecimento de geração em geração. Construímos(nos ) saber e partilhamos saber, será isso de facto o que realmente nos distingue dos outros animais.

A morte assusta-nos, intriga-nos, fascina-nos? Um pouco como aquela definição de amor que li uma vez: cedemos ao amor, porque este nos dá uma certa noção do desconhecido.

Maria Filomena Mónica escreveu e bem “que nos tempos de crise os meus compatriotas estão mais preocupados a tratar da vida do que da morte, o que tem como corolário deixar o nosso fim nas mãos dos políticos, dos padres e dos médicos. Uma atitude perigosa.”

A temática da morte foi considerada ao longo da história literária através de várias perspectivas e, no meu caso, também suscita obviamente curiosidade em ler sobre o assunto, embora tenha uma preferência para ler e escrever sobre a vida e isto, principalmente, porque a vida que cada um de nós conhece, é decerto rica em memórias e testemunhos únicos que devemos partilhar ainda em vida.

Assim fez o historiador e escritor britânico Tony Judt no seu livro “O Chalet da Memória” (tradução portuguesa Edições 70).

A doença (esclerose lateral amiotrófica – ELA), não impediu Judt de continuar a escrever nos últimos meses de vida e, apesar de ser uma prova e um testemunho doloroso, é também um hino e uma lição de vida que percorre a alma do autor, bem como a visão que tem do mundo, tendo por base essa viagem ao passado e às memórias, tal e qual como muitos de nós o fazemos no silêncio de uma noite em que viajamos por memórias que pensávamos extintas, mas que naquele momento se avivam como imagens dentro de nós.

“O Chalet da Memória” é essa viagem no tempo, de alguém que cresceu no período complicado do pós-guerra, que nos partilha pedaços de história, bem como as consequências ou reflexões que podem ser feitas actualmente.

“Mas quem é que anda pelo apartamento a apagar luzes e a ver torneiras que pingam? Quem é que, numa era de substituição instantânea, ainda prefere remediar-e-reparar? Quem é que recicla os restos de comida e guarda papel de embrulho usado? Os meus filhos dão um toque cúmplice, com o cotovelo, aos amigos: o pai cresceu na pobreza. Nada disso, corrigi-os: cresci na austeridade”

Para Judt, cujas duas décadas a seguir à queda do muro de Berlim foram desperdiçadas por um homem que se converteu à ganância. Afinal, parece que nada aprendemos com a história do Século XX.

Peço desculpa pela presunção, mas recomendo ao Homem uma viagem ao seu passado numa dessas noites passadas em silêncio e se for necessário, recomeçar de novo.


Opinião do membro SL Nuno Teixeira.
 

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