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| O Espião de D. João II |
| Terça, 22 Setembro 2009 10:49 | |||
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Em 1487, Pêro da Covilhã foi enviado de Portugal, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias, a descobrir por terra, aquilo que o navegador ia demandar por mar: uma rota para as especiarias da Índia e notícias do encoberto Preste João. Ao espião esperava-o uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelas regiões do Mar Vermelho e costas do Índico até Calecut e, também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas em lugares hostis, cujos costumes lhe eram completamente estranhos. Na pele de um enigmático mercador do Al-Andalus, o Escudeiro-guerreiro do Príncipe Perfeito realizou proezas admiráveis que causaram espanto no mundo do seu tempo. Neste romance fascinante, Deana Barroqueiro convida-nos a seguir o trilho de Pêro da Covilhã na sua fabulosa odisseia recheada de aventuras, amores, conquistas e descobertas inolvidáveis… Sobre a autora: Deana Barroqueiro (Prémio Máxima de Literatura – Prémio Especial do Júri com o romance D. Sebastião e o Vidente) é, sem dúvida, uma referência da ficção histórica, em Língua Portuguesa. Este livro, fruto de um rigoroso trabalho de investigação, unindo marcos de grande relevo histórico e uma descrição muito rica dos espaços e personagens, lê-se com fascínio da primeira à última página. Deana Barroqueiro nasceu em New Haven, Connecticut, nos Estados Unidos da América, em 23 de Julho de 1945. Atribui à sua ascendência murtoseira e lisboeta, assim como à longa viagem de transatlântico, de New York para Lisboa, que fez aos dois anos de idade, a génese da sua paixão pela grande aventura dos Descobrimentos Portugueses e seus protagonistas. Licenciou-se em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa e fez-se Professora de Francês e Português por vocação, efectivando-se na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, onde fez o estágio e concretizou a maioria dos seus projectos de Teatro e de Escrita Criativa com os alunos. Publicou várias colectâneas de contos e peças de teatro com o Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto de Inovação Educacional. Dotada de uma invulgar capacidade de comunicação, é frequentemente solicitada para palestras e conversas com os leitores, em escolas e outros espaços culturais, sobre a época dos Descobrimentos, a Cultura e História Portuguesas, em particular, do século XV ao XVII, que estuda há quase três décadas. Em Novembro de 2003, nos Estados Unidos da América, durante o sarau para atribuição de prémios do Concurso Literário Proverbo, de cujo júri fez parte, a escritora recebeu um louvor pela Câmara de Newark, em reconhecimento do seu contributo para a divulgação e promoção da língua e cultura portuguesas entre as comunidades de emigrantes da América, Canadá e Europa. Publicou nove romances históricos e dois livros de contos, um dos quais traduzido e editado em Espanha, Itália e Brasil. O seu romance D. Sebastião e o Vidente, que a Porto Editora escolheu para se lançar na área da ficção, foi agraciado com o Prémio Máxima de Literatura 2007 - Prémio Especial do Júri. Com quase duas dezenas de obras publicadas, O Espião de D. João II segue a recente edição de O Navegador da Passagem, romance histórico dedicado à grande figura dos Descobrimentos, Bartolomeu Dias. Mais informações aqui
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| Actualizado em Sexta, 08 Janeiro 2010 22:25 |
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Comentários
A convivência com diversas culturas e o relato que nos faz delas é um dos aspectos mais interessantes do livro. Na cultura indiana, por exemplo, Pêro espanta-se ao saber que as mulheres brâmanes e naires, as duas castas mais nobres, vivem em lugares próprios, sempre fora das cidades, com o intuito de não se cruzarem com castas inferiores às suas. Quando uma rapariga está na altura de receber um homem, a mãe começa a procurar imediatamente alguns brâmanes ou naires para lhe manterem a filha e assim dormirem, três ou quatro com ela, cada um deles dando-lhe uma certa quantia de dinheiro por dia para o seu mantimento. Em suma, quanto mais amantes tiver a mulher, mais honrada fica.
«Cada um dos seus maridos está com ela em dia certo, desde o meio-dia até ao outro meio-dia e assi vão passando sua vida sem haver entre eles quaisquer cumprimentos e, se algum a quiser deixar, larga-a e toma outra e ela também quando se aborrece de algum diz-lhe para se ir embora e ele não tem outro remédio senão obedecer-lhe.»
E é aí, na Índia, que descobre um mundo diferente do que estava habituado. «De uma única palmeira, se pode achar não só madeira como tecido para vestes, papel de carta ou fio para fazer cordas, leite, óleo e açúcar ou, ainda, vinho e aguardente para o prazer e o esquecimento». Descobre a canela, o fulgor do ouro, o brilho das safiras, os rubis.
E descobre, também, aquilo que julga serem as antigas Minas de Salomão, mas é envenenado por uma víbora que o deixa momentaneamente cego.
Quando é enviado, por D. João II, para a descoberta terrestre da rota das Índias, Afonso Paiva, seu colega em aventuras também o acompanha na viagem até África, mas com uma missão diferente: descobrir Preste João. Só que, anos mais tarde, quando Pêro decide encontrar-se com ele, descobre que o seu amigo havia sido assassinado e não tinha conseguido cumprir a sua missão. Decide então encetar novas aventuras para cumprir a missão do amigo.
É bastante curiosa a vida de Pêro da Covilhã, do qual, confesso, não sabia nada. Não conhecia a autora e embora a forma não me pareça excepcional tem uma escrita fluida e agradável, embora, apesar das notas de rodapé , utilizar demasiadas vezes termos beirões o que dificulta a leitura.
A primeira é contar a história de um ilustre português; felizmente, já não é preciso serem os estrangeiros a escrever sobre os portugueses, porque temos quem o faça e muito bem.
A segunda é revelar uma grande preocupação com o rigor histórico, sem prejuízo daquilo que é ficção; a autora revela uma imaginação fértil e soube construir um herói credível, para tapar os“buracos” históricos; além disso, revela um profundo trabalho de investigação, pelos muitos cenários em que a história decorre, desde o norte de África, ao Egipto, Médio Oriente, Índia, Zambézia, Arábia, Somália, Etiópia, etc.
A terceira é a linguagem utilizada; a autora usou muitos termos e expressões próprios da época e do local de origem do herói (Beira Baixa), o que permite ao leitor situar-se melhor no centro da história e viver os acontecimentos.
Só tenho duas coisas a apontar como menos conseguidas.
O livro é demasiado extenso para os hábitos dos portugueses, o que poderá desmotivar alguns leitores. O tema tem, a meu ver, excelentes condições para uma trilogia, cujos subtítulos poderiam ser: “A demanda da Índia”, “A demanda das Minas de Salomão” e “A demanda do Preste João”.
É verdade que ele fez por isso e o merecia, mas apresenta um Pêro da Covilhã demasiado sortudo. Triunfou sempre onde os outros falharam, mercê de felizes acasos: encontrava sempre a pessoa certa, no local certo e na hora certa. Pela experiência que todos temos, a vida não corre sempre assim tão bem... Só o final não foi o que ele desejava...
Estes senões são defeitos ou virtudes? Cada leitor dirá da sua experiência após a leitura do livro. Pela minha parte, achei-o rigoroso na história e divertido na escrita. Demorou um pouco a ler, mas deu-me muito prazer e recomendo a sua leitura a quem queira conhecer melhor um dos nossos heróis, que conhecemos de nome, mas pouco sabemos do seu contributo para o orgulho nacional.
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