O Homem Domesticado

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Autor: Nuno Gomes Garcia
Género: Romance
Edição: Mai/2017
Páginas: 232
ISBN: 9789897417214
Editora: Casa das Letras

 

 


E se a sobrevivência da humanidade dependesse da absoluta submissão do homem à mulher?

Desde o tempo em que Marine alcançou o poder, dando início a uma nova era, a sociedade foi-se progressivamente desumanizando: os conceitos de amor e de amizade deixaram de fazer sentido, os prazeres são malvistos e o sexo está proibido pelo novo regime totalitário, até porque a reprodução passou a ser padronizada e desenvolvida artificialmente em laboratórios.

As mulheres tornaram-se senhoras do mundo e submeteram os homens à condição de escravos - machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés.
A cidadã Francine Bonne é aconselhada pelas autoridades a escolher um segundo marido, depois de Pierre ter sido considerado um peso morto; mas desconhece que, ao trazer para casa um macho que foge ao cânone e cuja origem está envolta em mistério, a sua vida e a de Pierre sofrerão uma absoluta transformação. A ponto de o regime se sentir abalado com a possibilidade de um suposto retrocesso civilizacional…
Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva - tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflete de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade atual.

Autor:

Nuno Gomes Garcia nasceu em Matosinhos em 1978. Estudou História e Arqueologia nas Faculdades de Letras do Porto e de Lisboa, centrando-se na História Medieval, do Renascimento e da Expansão Europeia. Arqueólogo durante doze anos, especialista em Arqueologia Urbana, dedica-se actualmente à escrita de ficção e à consulta editorial. A viver em Paris há alguns anos, mantém ainda uma atividade política no seio da diáspora. Casado com uma cidadã lituana, é pai de dois filhos.
É autor dos romances O Soldado Sabino (2012) e O Dia em Que o Sol Se Apagou (2015), obra finalista do Prémio Leya em 2014.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2017-06-06 09:33
E se os papéis se invertessem e passasse a ser a mulher a mandar? Se o homem fosse inferior à mulher, física e mentalmente, e passasse a desempenhar o papel de "dono de casa" num casamento ao estilo do que acontecia na nossa sociedade há séculos e ainda acontece com na maioria das sociedades islâmicas?

É essa a sociedade distópica que este livro nos apresenta para um futuro próximo. Uma "Grande Tribulação", tipo epidemia, afeta os homens e força as mulheres a ter de salvar a humanidade e agarrar as rédeas do poder. E, uma vez à frente dos destinos da humanidade, aproveitam para impedir que os homens possam voltar a ter poder, no pressuposto de que virilidade e violência andam de mãos dadas. Teoricamente, esta nova sociedade humana é pacífica (a palavra crime até foi abolida do dicionário), mas veremos, ao longo do livro, que não é possível conseguir tal objetivo.
Neste nova humanidade, as mulheres já não engravidam e os bebés são incubados em úteros artificiais. Assim, é possível manusear a fecundação dos óvulos e os homens, agora chamados machos, são criados com as características adequadas ao seu novo papel na sociedade: frágeis, medrosos, submissos. As mulheres ocupam todos os postos de trabalho fora de casa e os machos só podem sair à rua autorizados pelas esposas e cobertos da cabeça aos pés. Elas é que os escolhem e levam para casa, como quem vai à loja comprar um cachorro, e educam-nos com castigos e palmadas, tal como fazemos com uma criança ou um animal.

Mas, apesar de toda a repressão, de toda a vigilância, do castigo exemplar infligido a todos os que se atrevem a violar as regras impostas pelo governo, há neste sistema, como em todos os sistemas ditatoriais, quem fure o esquema. Conseguirão as "emancipadoras" voltar ao que é considerado "um retrocesso civilizacional" ? Poderá voltar a haver conceção através do sexo e do amor entre um homem e uma mulher? E acabará o poder ditatorial das mulheres? É o que só saberá no final do livro e que também eu não vou desvendar...

Como se vê, é um tema interessante que, a meu ver, é uma crítica de forma sarcástica, mesmo irónica, à sociedade atual. São tocados pelo autor aspetos como as leis islâmicas sobre o casamento e os direitos das mulheres, que a sociedade ocidental considera retrógrados. Também os movimentos de emancipação da mulher que podem conduzir não à igualdade de género, mas ao domínio da mulher sobre o homem. Desmistifica também a crença de que todas as mulheres são pacíficas, honestas e mães dedicadas. E condena todos os regimes ditatoriais, qualquer que seja a sua cor política e os seus promotores, porque, em ditadura, todos os meios são considerados justos para se perpetuar no poder. Veja-se, por exemplo, o que Maduro está a tentar fazer na Venezuela e Kim Jong-un faz na Coreia do Norte.

Todos estes temas são insinuados no livro, através da história de um casal atípico que vai despoletar grandes problemas ao regime e fazê-lo tremer. É, portanto, um romance em que há personagens representativas dos vários campos em confronto. O autor soube caracterizá-las muito bem, assim como os cenários em que se movem. Também a sociedade distópica que criou está bem desenhada, embora me parecesse um pouco simplista. Os acontecimentos cingem-se à zona de Paris e não sabemos bem se o fenómeno é global ou local. Faz-se alguma referência à Alemanha e outros países vizinhos, mas não sabemos o que se passa no mundo, nem sequer no resto da França. Ficamos, por isso, sem saber se este regime feminista tem sustentabilidad e, ou se é uma coisa local e efémera.
De qualquer modo, os objetivos do autor foram cumpridos, porque, fosse um fenómeno local ou fosse global, demonstrou muito bem como poderia ser um regime assim, com as suas virtualidades, os seus defeitos e a sua falibilidade.

Gostei e recomendo, até porque é um tema em que já tenho pensado muito e não é, de modo nenhum, impossível que venha a acontecer no futuro (com estas características ou outras). As mulheres emanciparam-se (e muito bem) e estão cada vez mais a tomar conta da sociedade. Não me espanta que, num futuro próximo, os Estados e as Empresas sejam dirigidos maioritariament e por mulheres. Dizem as estatísticas que as raparigas têm mais êxito nos estudos, estão a ultrapassar os rapazes em sabedoria, nível de estudos e qualificação escolar e profissional. E os efeitos estão a fazer-se sentir, à medida que elas conquistam lugares de direção, se tornam empresárias ou altas dirigentes políticas. Por exemplo, ao assumirem grandes responsabilidad es sociais, as mulheres estão cada vez mais a não ter tempo, nem vontade, de ter filhos, de assumir a sua educação, de sofrer as dores da maternidade. Talvez "o homem domesticado" não seja uma ficção tão longínqua como pode parecer.
 

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