O Judeu

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Autor: Bernardo Santareno
Género: Teatro
Edição: Out/2018
Páginas: 280
ISBN: 9789898872036
Editora: E-primatur

 

 

 

Muito provavelmente a melhor peça teatral portuguesa do século XX.
Em 1966, em pleno regime Salazarista, Bernardo Santareno trabalha em cima do romance homónimo de Camilo Castelo Branco (E-Primatur, 2016) que se inspirara na história do dramaturgo português seiscentista António José da Silva, conhecido como o judeu, e cria aquela que tem sido, ao longo dos anos, considerada provavelmente a melhor peça de teatro portuguesa do século XX.

Ao contar a história do dramaturgo António José da Silva, Bernardo Santareno estabelece uma alegoria do regime Salazarista e da sua perseguição a qualquer tipo de discurso livre. A Inquisição, o tribunal, a escumalha de denunciantes e afins que condenam António José da Silva à fogueira têm evidente paralelo na acção da PIDE e na censura ideológica e política bem como no regime opressor.
Se Camilo tinha criado um romance de época que era uma grande saga familiar sobre um país de extremos mas também sobre a opressão, Santareno cria uma peça eminentemente política na acepção pura da palavra.

Autor:

Bernardo Santareno, pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (Santarém, 19 de Novembro de 1920 — Oeiras, 29 de Agosto de 1980) é considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Formado em Medicina psiquiátrica, Bernardo Santareno rapidamente conciliou a sua profissão de médico com a de escritor. Primeiro poeta, autor de três livros e, mais tarde, dedicou-se ao teatro, em muito influenciado pelas experiências como médico da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova e Gronelândia que incluiria no seu único livro de narrativas, «Nos mares do fim do mundo».
Da sua obra teatral destacam-se «A promessa», «O lugre», «O crime da Aldeia Velha» ou «O judeu»; a primeira foi retirada de cena por pressões da Igreja Católica junto do governo salazarista. Várias das suas obras foram adaptadas ao cinema e a telefilmes.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-12-07 13:53
Bernardo Santareno é, sem dúvida, um dos maiores, se não o maior dramaturgo português do século XX. Era médico psiquiatra e, nessa qualidade, esteve com a frota bacalhoeira nos mares da Terra Nova e Gronelândia em 1957 e 1958, tendo, inclusivamente, escrito um livro de memórias sobre o tema. Começou por publicar alguns livros de poesia, antes de se dedicar ao teatro. A partir de 1957, começou a escrever peças teatrais de denúncia a todas as formas de opressão e discriminação, em luta aberta contra os preconceitos morais e sociais da época, o que lhe valeu a inimizade da Igreja Católica, chegando a ser proibida a exibição da peça "A Promessa", por pressão do Bispo do Porto. Mas a grande viragem na sua obra deu-se em 1966 com a publicação de "O Judeu", a sua obra emblemática e aquela que já teve mais edições. Com ela iniciou-se um período de contestação direta ao regime salazarista, o que lhe trouxe grandes problemas com a censura. A representação das suas peças foi sistematicament e restringida pelo regime, tendo prejudicado a sua produção como escritor, o que foi pena, pois podia ter-nos deixado muito mais obras. Só depois do 25 de Abril, as suas peças de teatro foram verdadeiramente aplaudidas e a sua obra conhecida. Por exemplo, "O Judeu" só foi estreada em 1981 no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Rogério Paulo.

Passando à peça em causa, depois deste preâmbulo de enquadramento na obra do autor, é uma peça de teatro em 3 atos, na qual se narra a odisseia de António José da Silva, um "cristão-novo" (eram assim chamados os judeus que tinham sido forçados a converter-se ao cristianismo) que tinha nascido no Brasil em 1705, para onde a família se tinha mudado por ali ser mais leve a perseguição da Inquisição, mas voltou quando a sua mãe foi trazida para Portugal acusada de continuar a praticar o judaísmo. Estudou Direito em Coimbra e (pelo menos segundo a peça) não era praticante do judaísmo. Mas foi perseguido pela Inquisição, acusado das mesmas práticas da mãe. Foi ator e autor de peças satíricas, onde criticava a sociedade do seu tempo, que representava no Teatro do Bairro Alto, e eram muito concorridas e aplaudidas por todas as classes sociais, até pelo Rei. Apesar da sua constante afirmação de que não era praticante, não se livrou do estigma do judaísmo, porque era aplaudido pelos seus fãs com o grito de "O Judeu", que lhe ficou ligado para sempre. Depois de ser submetido às maiores violências, acabou por ser condenado à morte e queimado no Auto de Fé de 1939, em Lisboa, com 34 anos de idade. É esta, em linhos gerais, a trama desenvolvida na peça de Bernardo Santareno.

"O Judeu" é, na minha modesta opinião, uma peça de teatro muito bem construída, que não pode ser representada num palco muito pequeno, porque exige vários cenários em simultâneo e que pressupõe alguma tecnologia, por jogar constantemente com mudanças de luz e escuridão, implicar projeções, frequente utilização de som e voz off e uma montagem cénica muito profissional. Com a tecnologia atual, não será muito difícil a sua encenação, mas talvez não fosse muito fácil na época em que foi escrita.

No palco, joga-se constantemente o contraste entre a ação dos Inquisidores e a fraqueza do poder real, por um lado, e "O Judeu", os seus familiares e a sua atividade como pessoa e autor/ator teatral, pelo outro. Uma maneira engenhosa que Bernardo Santareno engendrou para conjugar estes contrastes e dar aos espetadores a perspetiva da época e a sucessão dos acontecimentos foi a criação da personagem do "Cavaleiro de Olivença". Este existiu realmente e era um expatriado que denunciava no estrangeiro as atrocidades da Inquisição em Portugal, numa época em que já tinha sido desacreditada em toda a Europa. Aparece aqui numa espécie de púlpito à margem do palco, de onde se dirige aos espetadores e faz longas tiradas de introdução a mudanças de cena, de datas, de locais, no papel de narrador, mas também de comentador, denunciando a situação política da época e as atrocidades da Inquisição.

É também através desta personagem central do Cavaleiro de Olivença que o autor faz a ligação entre o século XVIII e o século XX, mostrando as semelhanças entre os métodos da Inquisição e os do regime de Salazar. Vejamos alguns breves excertos:
"Se estas cousas que aqui vos digo e escrevo (...) um dia chegassem ao conhecimento dos portugueses vindouros, os que hão-de vir daqui a... sei lá? duzentos anos, poderiam eles entendê-las? E à sociedade que as permite? E às forças que as provocam?"
"Estais vendo? Que lástima de país! Espiões, polícias, outra vez espiões... Quem pode viver em Portugal?"
"Letra por letra, rasgar eu queria estes terríveis versos: Para que em nenhum outro tempo, neste infeliz reino de Portugal, nem um só coração neles torne a achar eco e companhia!"
"Cerrados uns contra os outros, lutai, combatei com quanto alento tiverdes, para que os atrozes acontecimentos que aqui me ouvistes contar não mais voltem a acontecer neste provado Reino!"

Pelo exposto, fica demonstrada a qualidade literária desta obra, o seu interesse político e social e o meu incentivo para que todos os que puderem a leiam atentamente, para que nesta Nação não haja mais regimes opressivos, venham eles de onde vierem, tenham a cor que tiverem ou sejam quais forem as suas motivações.
 

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