O luto de Elias Gro

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Autor: João Tordo
Edição: Abr/2015
Páginas: 328
ISBN: 9789898775337
Editora: Companhia das Letras

 

 

 

Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.

O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

Deste autor no Segredo dos Livros:
Biografia Involuntária dos Amantes

Autor:

João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Formado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa, trabalhou como jornalista freelancer em vários jornais. Viveu em Londres e nos Estados Unidos. Em 2001, venceu o Prémio Jovens Criadores na categoria de Literatura e, mais tarde, o Prémio Literário José Saramago 2009 com As Três Vidas (2008), tendo sido finalista, com o mesmo romance, do Prémo Portugal Telecom, em 2011. Com o romance O Bom Inverno, publicado em 2010, foi finalista do prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Literário Fernando Namora; a tradução francesa integrou os finalistas da 6.ª edição do Prémio Literário Europeu. Da sua obra publicada constam ainda os romances: O Livro dos Homens sem Luz (2004), Hotel Memória (2007), Anatomia dos Mártires (2011), finalista do Prémio Literário Fernando Namora, O Ano Sabático (2013) e Biografia Involuntária dos Amantes (2014). Os seus livros estão publicados em sete países, incluindo França, Itália e Brasil.

Visite o blogue do autor joaotordo.blogs.sapo.pt

Comentários  

 
#4 Sebastião Barata 2016-06-06 11:55
O luto... O que é o luto? Afinal, podemos fazer luto de quê? E de que forma? Parece-me ser este o tema que João Tordo desenvolve neste primeiro livro de uma trilogia sem nome, mas que parece ser acerca da condição humana, da nossa qualidade de ser pensante, de ser com sentimentos, de ser capaz de criar os seus próprios fantasmas. Nesta perspetiva, a ideia de Deus será um fantasma criado pelo homem, para justificar a sua própria existência e lhe dar uma lógica e uma razão de ser?

Neste livro, o autor apresenta-nos várias personagens a viver o seu luto, cada um à sua maneira. Embora o título refira o luto de Elias Gro, um pastor de uma religião cristã (não católico), vivemos também o luto do narrador, cujo nome não nos é revelado, e o luto de Lars Drosler, um velho escritor dinamarquês, também do faroleiro Xavier, deficiente de guerra, de Alma, sobrevivente de um naufrágio. São todas personagens sombrias a viverem numa pequena ilha, onde tudo falta, como um cemitério ambulante no meio do mar, à espera do dia em que também se vai afundar. Todos eles têm os seus motivos para se virem enterrar naquele lugar inóspito, para quererem afogar as suas mágoas e fazer o seu luto.
No meio daquele ambiente de tristeza e de desgostos imensos, o nosso narrador vai encontrar a sua redenção, de uma maneira que não é propriamente inesperada, porque se vai desenvolvendo ao longo do livro e acaba por ser o fim que o leitor deseja. Mas é, de certo modo, contra a lógica da ilha, em que todos se afundam, cada um à sua maneira.

Não é um livro fácil, mas é um livro de autor maduro, escrito não com o objetivo de agradar, mas como uma reflexão filosófica sobre o sentido da vida, sobre o papel das vivências da infância no desenrolar da vida de cada um, sobre o relacionamento interpessoal e como este pode condicionar a nossa caminhada pela vida.
 
 
#3 Joana Cardoso 2015-07-05 12:53
O Luto de Elias Gro fala-nos acerca da perda, do desespero, do abismo sem fundo onde, às vezes, o ser humano se coloca por vontade própria, porque é mais fácil viver no sofrimento do que fazer algo para sair dele.

A história é contada do ponto de visto de uma personagem da qual nunca saberemos o nome e passa-se numa ilha que nunca saberemos qual é. Através dos olhos desta personagem, vamos ficando a conhecer os poucos habitantes da ilha e os seus demónios, bem como os fantasmas do próprio narrador.

A escrita do autor é simples, mas poderosa. É capaz de transmitir na totalidade os sentimentos e angústias das personagens. A sua caminhada desde o desespero, o luto, a culpabilização até à redenção, à aceitação. Mais importantes do que a história em si, são os sentimentos que o autor transmite ao leitor. Este sentimentos corrosivos são transmitidos principalmente através do narrador, de Elias Gro e de Drosler (um alemão já falecido). Cada uma destas personagens teve os seus próprios demónios, se bem que alguns eram bastantes semelhantes. Contudo, cada um deles encontrou, ou não, uma maneira diferente de lidar com eles, de os ultrapassar e de tentar remediar os danos que possam ter causado, enquanto vogava através da sua tristeza e abandono.

Os únicos raios de esperança no meio da narrativa acabam por ser Alma e Cecília. A primeira que, apesar das provações por que passou, é alguém bondoso e sempre disposta a ajudar com um sorriso na cara. A seguda, uma criança de 11 anos que tem um fascínio pelos ossos do corpo humano, que tem sempre uma resposta mordaz na ponta da língua e é dona de uma personalidade muito forte.

Apesar de ser um livro intenso e que me agradou, a leitura foi algo morosa. Isto deveu-se principalmente ao facto de o livro não ser dividido em capítulos. Sendo a narrativa toda seguida, fez-me sentir que não tinha tempo para respirar entre acontecimentos, levando a que fosse mais difícil "digerir" o que se estava a passar e processar os acontecimentos.
 
 
#2 rosario quintino 2015-06-02 10:43
É uma obra intensa, sofrida e com uma grande carga emocional à flor da pele, onde João Tordo mergulha na alma humana, mais ligada ao povo português.

Temos aqui a vida de Elias Gro na pequena ilha e as memórias de um passado importante para Elias. No presente, temos as ações do narrador que se procura a si mesmo, procura encontrar na solidão a paz que precisa, mas encontra só problemas com a bebida.

Gosto bastante da escrita de João Tordo, mas este livro é muito intenso.
 
 
#1 João Teixeira 2015-05-10 16:04
E ao segundo livro que leio de João Tordo, o autor consegue surpreender-me! O primeiro foi Hotel Memória e, relendo a minha opinião acerca desse livro lido em Junho de 2013, fico feliz por ver consubstanciado neste O luto de Elias Gro o grande potencial que anunciara nas suas obras anteriores. A escolha do tema para este livro também me parece que foi mais pensada (e bem articulada). Se em Hotel Memória, houve uma tentativa de construção de um thriller algo folhetinesco, mais ao gosto do leitor comum, em O luto de Elias Gro João Tordo apresenta-nos uma obra de literatura mais séria, "atmosférica e intimista", como se diz na sinopse, não cedendo ao facilitismo comercial. Não é de estranhar: João Tordo é já um nome bem firmado na nova geração da literatura portuguesa, vencedor de alguns dos prémios literários mais prestigiantes do nosso país e, por isso, já se pode começar a dar ao luxo de escrever o que bem lhe apetecer.

Tal como tive oportunidade de perceber com Hotel Memória, posso agora afirmar com mais propriedade que gosto bastante da escrita de João Tordo. Trata-se de uma maneira de escrever simples, mas muito consistente e clara, feita sem pressas, com a qual o autor consegue transmitir muito bem as suas ideias, e que os leitores poderão saborear devagar.

Apesar de o livro se chamar O luto de Elias Gro, a história começa por centrar-se num homem ao qual não é dado nome nem nacionalidade e de quem apenas sabemos a idade (40 anos) que, para fugir a um acontecimento do qual, aparentemente, foi responsável, se refugia numa ilha distante do seu país de origem, onde as pessoas falam francês, mas também sabem falar inglês.

Este homem arrenda um farol para viver e esse farol servirá como símbolo de misantropia e do afastamento a que se auto-impõe, por causa do tal acontecimento (que só chegamos a saber qual é a meio da narrativa) e que o deixa à beira de uma derrocada existencial («tudo o que se constrói está sujeito a uma derrocada iminente», como diz o narrador da nossa história).

A salvação deste homem só será possível com a ajuda de Elias Gro, da sua filha e dos restantes habitantes da ilha, cujas histórias vamos conhecendo a pouco e pouco, através dos escritos de um dinamarquês falecido que aportou na mesma ilha anos antes, e cuja casa entretanto se afundou no mar.

Este é, de facto, um livro sobre a inquietação do ser humano num mundo absurdo que não consegue compreender. Mas é um livro também sobre a aceitação dessa condição, por via da contrição e do valor da amizade.

A história é algo complexa, como já deu para perceber, e tudo menos imediata, com diferentes níveis de leituras, mas isso, na minha opinião, é um ponto a favor de João Tordo. Parece-me que o autor amadureceu desde que escreveu o tal Hotel Memória (único livro com o qual posso comparar este que agora aqui comento) e que muito boa coisa ainda estará para brotar da sua pena no futuro.

8 em 10 estrelas
 

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