O Último Paraíso

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Autor: Antonio Garrido
Edição: Nov/2016
Páginas: 480
ISBN: 9789720048400
Editora: Porto Editora

 

 

 

Em 1929, o jovem e experiente Jack Beilis tinha o seu próprio carro, usava fatos feitos à medida e frequentava os melhores clubes de Detroit. Mas a crise brutal que nesse ano atingiu a América atirou-o, como a milhares de compatriotas, para os braços da fome e do desespero. Forçado a sair do país após cometer um crime, foge para a União Soviética, o império idílico onde a todos era igualmente garantido o direito à felicidade, sem suspeitar dos insólitos incidentes que o destino ainda lhe reserva.

Inspirado em acontecimentos reais, este thriller combina magistralmente factos históricos, suspense e romance, resultando numa extraordinária reinvenção do mito do sonho americano.

Primeiras páginas disponíveis aqui.

Deste autor no Segredo dos Livros:
O Leitor de Cadáveres

Autora:

Antonio Garrido, nascido em Linares em 1963, estudou Engenharia Industrial e leciona na Universidade Politécnica e na Universidade CEU Cardenal Herrera, ambas em Valência.
O Leitor de Cadáveres foi muito bem acolhido pela crítica, tendo recebido o Prémio Internacional de Romance Histórico "Ciudad de Zaragoza", um dos mais importantes galardões do género. O seu primeiro romance, A Escriba, figura já no catálogo da Porto Editora e obteve um enorme sucesso em Espanha, tendo sido traduzido para treze idiomas.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2017-03-04 22:10
Antes de mais, um pouco de História, para nos situarmos e compreendermos aquilo de que fala este livro. Em 1917, foi derrubado o regime dos Czares, monarquia tradicional da Rússia e, após uma breve luta pelo poder, acabou por ser criada a República Socialista da Rússia, sob o comando de Lenine. Este implantou um regime de partido único, o Partido Comunista, e fomentou a criação de idênticos partidos nos países vizinhos que, com a sua ajuda, tomaram o poder e se federaram com a Rússia, formando a União Soviética. Lenine morreu em 1924 e o Partido passou a ser liderado por Estaline, o grande ideólogo da doutrina marxista-lenini sta, que começou a transformar a União numa sociedade de economia planificada, com a estatização dos meios de produção e a industrializaçã o acelerada, dado que a população vivia ainda um estilo de vida quase medieval, sem tecnologia e a viver pobremente do que tirava da terra com muito esforço. Para desenvolver esta estratégia, fez parcerias com empresas ocidentais, para montar fábricas no país e formarem a população para trabalhar nelas.
Foi assim que a Ford instalou em 1932, em Gorki, a Autozavod, uma fábrica de automóveis. Para criar a mão de obra necessária, os soviéticos forçaram milhares de famílias a deixar as suas terras e serem deslocadas para Gorki. Agricultores submetidos a formação deficiente causaram enormes dificuldades ao arranque e funcionamento da fábrica. Mas outros fatores tiveram influência na sua fraca produção, entre os quais a corrupção e desvios de fundos para o contrabando, os privilégios dos militantes do Partido sobre a generalidade dos trabalhadores e a forte repressão da polícia política que via reacionários em tudo o que mexia e passava o tempo a enviar pessoas para os "campos de reeducação", diga-se, campos de concentração na Sibéria, onde a maioria acabava por morrer.

Em simultâneo com este cenário, ocorreu a Grande Depressão nos Estados Unidos, em 1929, que lançou milhões de pessoas no desemprego. Muitas famílias viram-se, de um dia para o outro, na maior miséria. A emigração aparecia como uma das hipóteses de dar a volta à vida. A situação era propícia ao aparecimento e desenvolvimento de ideologias como a comunista e o sonho de emigrar para a Rússia conquistou muita gente. Os propagandistas comunistas diziam que lá não havia desemprego, nem pobres. Havia trabalho e comida para todos. Era o sonho de "O Último Paraíso" na Terra! Todos os convertidos queriam participar na construção dessa sociedade nova, sem patrões, onde todos eram camaradas e irmãos.

Estava criado o cenário perfeito para a construção da história ficcionada deste romance, que narra a odisseia de um grupo de desempregados e esfomeados que rumaram à Rússia, em busca do Paraíso, para trabalhar na Autozavod. Mal sabiam eles que rumavam ao Inferno e a sua vida foi tudo, menos feliz. Entre eles, estava Jack Beilis, um desempregado da Ford, com grandes capacidades e conhecimentos de mecânica, além de ser dotado de sagacidade, tenacidade e outras capacidades, através das quais vai interagir com as diversas partes em confronto e conseguir o impensável, mas sem evitar um fim com o qual não sonhava, na sua precipitada fuga de uma América que já não lhe dizia nada.

Esta história baseada em factos reais, transforma-se num thriller absorvente, a que o leitor não consegue deixar de se ligar, e o leva a viver momentos de raiva, de terror, de sofrimento e, por vezes, até de descrédito na pessoa humana. Será que o Homem é mesmo capaz de destruir os sonhos mais dourados? Haverá mesmo algum tipo de organização social que sirva o ser humano? Seremos mesmo uma raça que destrói tudo aquilo em que toca? Seremos mesmo capazes de ver mais longe do que um palmo à frente do nosso umbigo?

Um livro premiado que todos deviam ler, especialmente agora que o drama da emigração está na ordem do dia e regimes potencialmente ditatoriais se perfilam no horizonte próximo.
 

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Uma Pequena Palavra...

"Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, são natimortas. Outras têm o dia breve que lhes confere a sua expressão de um estado de espírito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na infância. Outras, de maior escopo, coexistem com uma época inteira do país, em cuja língua foram escritas, e, passada essa época, elas também passam; morrem na puberdade da fama e não alcançam mais do que a adolescência na vida perene da glória. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu país, ou da civilização, a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civilização; essas alcançam a idade adulta da glória universal. Mas outras duram além da civilização, cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que é tão mortal como os Deuses, que começam mas não acabam, como acontece com o Tempo."
Fernando Pessoa, in Heróstrato