Para Onde Vão os Guarda-Chuvas

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Autor: Afonso Cruz
Edição: Out/2013
Páginas: 624
ISBN: 9789896721978
Editora: Alfaguara (uma chancela Objectiva)

  

 


O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.

Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

Excerto:
- A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.

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Deste autor no Segredo dos Livros:
Os livros que devoraram o meu pai
A Boneca de Kokoschka

Autor:

Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda “The Soaked Lamb”. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e viajar por mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE, conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014 e o Prémio Literário Fernando Namora, em 2016, pelo romance Flores.

Comentários  

 
#3 Helena 2013-12-14 00:22
Completamente distinto do que habitualmente leio. Saí da minha zona de conforto, porque não resisti a tantos e tão rasgados elogios que ouvi e li. Merecidos, porque, na minha modesta e pouco habilitada opinião, Afonso Cruz é brilhante na sua criatividade e originalidade neste romance efabulado sobre um Oriente imaginário e mágico quanto tenebroso, que representa com simplicidade, mas não sem provocar desassossego. Histórias que podem não ser felizes ou redentoras como esperamos ou desejamos ler, numa linguagem (quase) poética e bem ritmada, mas que certamente agita consciências.

O padrão de um tapete comparado à trama da vida em que se entrelaçam os fios de várias cores, qual personagem da narrativa, para um efeito espantoso, feito um hábil tecelão.
Religião e tolerância talvez seja a cor de fundo, mas também perdas e afetos. Tanto para refletir e assimilar sobre o "equilíbrio absurdamente/ moralmente/ esteticamente desequilibrado" deste mundo.
 
 
#2 João Teixeira 2013-12-05 16:45
«Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda-chuvas?»

Afonso Cruz é possivelmente o meu escritor português preferido da sua geração. Já tive oportunidade de o dizer em comentários que elaborei aqui no Segredo dos Livros, a propósito dos seus livros anteriores, mas creio que nunca é demais reforçar que este autor escreve maravilhosament e bem, fazendo uso de imagens poéticas com um bom ritmo, que não nos cansa, mas que nos exigem uma (re)leitura demorada, para que sejam verdadeiramente apreendidos por nós. Os aforismos retirados do (fictício, mas que parece tão real) livro Fragmentos Persas são um excelente exemplo disso mesmo. Ou então esta frase (uma das dezenas que se poderiam extrair deste livro): «(...) deveríamos chorar estrelas [em vez de simples lágrimas], para mostrar como tudo o resto é pequenino comparado com tudo o que nos dói.». Maravilhoso.

O que é verdadeiramente inovador nos livros de Afonso Cruz é a sua capacidade para nos surpreender através de certos artifícios que não estamos habituados a ver em livro, mas que curiosamente resultam bem, seja através de um tipo de letra diferente, seja através da orientação das palavras na página, seja até mesmo através de um pequeno símbolo perdido no meio do texto ou um desenho que vem exemplificar aquilo que acabou de ser narrado.

As histórias de Afonso Cruz são uma espécie de puzzle que se vai construindo na nossa cabeça, à medida que as mesmas nos vão sendo desveladas. As histórias vão-se desdobrando de dentro de outras histórias, tal qual verdadeiras matrioskas literárias que, por incrível que pareça, não nos deixam confundidos. É fascinante a capacidade que este autor tem em passar para o papel tantas ideias sem as baralhar (e sem nos baralhar a nós, os leitores que as lêem).

Neste livro tão rico do ponto de vista literário são-nos narradas diversas histórias, algumas ternurentas e cómicas, mas na sua grande maioria trágicas. Nós, leitores, somos mais ou menos apanhados desprevenidos com a tragédia das histórias, as quais nos parecem estranhas, por no final não surgir(em) a(s) redenção(ões) esperada(s). Mas, no fundo, é esse murro no estômago que Afonso Cruz faz questão de nos dar, de forma a relembrarmos, ou a não esquecermos, o «equilíbrio notavelmente / absolutamente / absurdamente / infinitamente / moralmente / esteticamente desequilibrado do universo».

9,5 estrelas em 10
 
 
#1 Cristina Delgado 2013-12-01 20:54
Um livro verdadeiramente surpreendente! Fiquei deslumbrada com a escrita de Afonso Cruz e curiosa em relação às suas outras obras, os romances sobretudo. Será que os outros livros terão a mesma qualidade que este?
As personagens são tão ou mais importantes que a história em si. A história prende, é claro! Mas a riqueza das personagens é espectacular a faz desta obra uma delícia constante. O mudo que falava por gestos e que com eles fazia poesia e a criança que era parecida com o pai adoptivo e que queria desesperadament e atenção e amor, são as personagens que mais me maravilharam.
Um livro original, tanto na história como no próprio formato (há páginas que são uma delícia!), com um final surpreendente, aterrador mas belo!
 

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"Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar."
Valter Hugo Mãe in Desumanização