Quando Morreres Vou Amar-te

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Autores: Luis Miguel Raposo e Maria José Caiola
Edição: Abr/2011
Páginas: 180
Editora: Fonte da Palavra

 

 


os nossos olhares baixam sobre as nossas mãos estendidas no plano da mesa e eu não digo nada. vem depois um importante silêncio
calafetar os espaços das coisas que não ocupamos para haver uma continuidade feita de qualquer coisa de nós para o nosso redor e nessa continuidade possamos continuar a existir. estou no meu silêncio que nele é igual e não digo nada. e eu não digo nada. estávamos nisto e eu digo sem palavras tenho medo de amar-te e o teu olhar cheio de uma lonjura maior que cordilheiras diz-me sem palavras não temos de correr o tempo é nosso,

pertencemos às eras, ou não há tempo sem nós, somos as eras, qualquer coisa assim, distingo-lhe o sentido às palavras mesmo se silêncio, também eu tenho medo mas é um medo diferente tenho uma força de ser mulher que é como uma borracha nos traços do medo, aqui eu penso a tua ausência dói-me. será que quando partes me recordas a recordar-te e a perder-me nessa dor? estou a pensar o meu medo é o medo da felicidade. fui um dia andar de mão dada com ela a felicidade por companhia às voltas no parque andámos mão com mão certas vezes muito firmes e depois levei-a ao cinema onde não coube fechada. veio outro dia e eu quis morrer porque a não encontrei nem mesmo à porta do cinema onde também fui procurá-la. estava dispersa no vário rosto aí incrustada, em ocasiões integrada. como se matéria finita, escassa, sem dono. mas tenho uma força que se regenera de ser mulher. vai ter dias de chegar para os dois. diz-me em silêncio como se o silêncio fosse o precursor do amor derradeiro e definitivo. todas as palavras sem o excesso de as dizermos. não digo nada e estou a querer dizer-lhe que há uma liberdade sobre nós que podia ser como um ar de respirar e se não corrermos não nos vai faltar mas como. se escolho o silêncio. talvez o meu olhar lho explique sem um labirinto de palavras abrir ambiguidades de nos perdermos. por isso não digo nada. silêncio.
(…) um silêncio nosso abrigado de um nada que é impenetrável. ocupamos o espaço entre os espaços. um entre luz.

Do mesmo autor no Segredo dos Livros:
Marés de Inverno

Autor:

Luís Miguel Raposo nasceu em Almada, a 6 de Novembro de 1971. Aos 15 anos começou a fazer surf na Costa de Caparica. Concluiu em Lisboa uma licenciatura em Organização e Gestão de Empresas no ano de 1994. Actualmente trabalha como consultor de gestão e formador. “Marés de Inverno” é o seu primeiro romance, publicado pela Bertrand sob a chancela O Quinto Selo, tendo já planeado uma sequela. Está a escrever o segundo romance para concluir no Outono de 2009.
Continua a surfar com regularidade, sobretudo em Peniche. A praia do Molhe Leste é nestes dias a sua praia de eleição.


Autora:

Maria José Caiola nasceu a 11 de Agosto de 1962 no Príncipe Real, em Lisboa. Começou a dançar com 4 anos. Concluiu o curso de dança do Conservatório Nacional em 1982. Foi estagiária no Ballet Gulbenkian. Estudou Biologia na FCUL. Licenciou-se em Ciências da Natureza - Matemática na UAL. Foi co-fundadora da companhia de teatro “Os Revisteiros”, em Samora Correia. Sempre dividida entre o ensino e a dança, mantém as duas actividades em paralelo. É docente no Agrupamento de Escolas da Venda do Pinheiro e professora de Ballet e Dança Contemporânea na S. F. O. Olhalvo e na Academia Art & Dança, em Alenquer.
É mãe de duas filhas. Vive com a família no concelho de Alenquer.

Comentários  

 
#1 Fátima Rodrigues 2011-04-14 13:39
Este livro deixa-me um sentimento de dualidade: se, por um lado, o acho um grande livro, por outro sabe-me estranho.
Neste livro, nada é como em todos os outros. Neste livro não se pode seguir a acentuação, porque ela não serve para ajudar na leitura, mas sim para sublinhar os sentimentos e aspectos mais importantes para as personagens. Lê-lo é como embarcar numa aventura e num naufrágio, onde apenas temos de nos deixar levar pelas palavras, sem realmente as ler, mas sim sentindo-as, parar para que elas se reorganizem na nossa cabeça e saborear então o que se torna um livro único para cada um, pois, com as mesmas palavras, será sempre sentido e interpretado de forma diferente por cada um de nós, enquanto seres diferentes. E mais, atrevo-me a dizer que será um livro diferente ao longo dos tempos, em função do que nos tornamos e como passamos a sentir o que já tínhamos lido e sentido.
Assim, devo dizer que é um livro difícil de ler, muito difícil, mas um livro simples de sentir, onde as palavras parecem desorganizadas, mas onde acabam por tomar o seu lugar. Um livro que conseguimos contar, mas sem termos tido a sensação ou a certeza de que é realmente isso que lá está ou que o autor quis transmitir. Só o comparo a um sonho, onde tudo parece não fazer sentido e é vivido como que ao longe, mas onde, no final, parece fazer sentido e ter sido vivido.
Não será um livro para todos os leitores nem para todos os momentos, mas sim um livro para saborear com calma, silêncio e persistência, mas que penso valer a pena.
Os meus parabéns aos autor e à editora que arriscaram nos dias que correm num livro destes, que corre o sério risco de ser incompreendido e desprezado, face a uma cultura de facilitismos e onde se lê por desporto e entretenimento, sem procurar desenvolvermo-n os e superarmo-nos.
 

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"Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar."
Valter Hugo Mãe in Desumanização