Quem Meteu a Mão na Caixa

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Autora: Helena Garrido
Género: Economia
Edição: Mai/2018
Páginas: 216
ISBN: 9789896661588
Editora: Contraponto

 

 

 

A história que envergonha o país
Depois de uma investigação rigorosa ao mundo dos bancos portugueses, Helena Garrido regressa para, num livro sobre a Caixa Geral de Depósitos, mostrar como o banco público serviu para negócios e operações duvidosas - sempre a mando do poder e sempre a perder dinheiro que pertence aos contribuintes.

Na recente história da Caixa há de tudo. Credora discreta de homens sem dinheiro que querem ser "donos" de grandes negócios e estar na mesa do poder. Investidora em projetos de "interesse nacional" duvidoso e que veio a revelar-se catastrófico. Acionista nos bastidores a dar palco aos defensores dos "centros de decisão nacional". Canal de dinheiro para viabilizar "investimento direto estrangeiro". Financiadora de especuladores bolsistas e imobiliários. Centro de empregos, influência e poder dos governos.
Capturada por todo o tipo de interesses, fragilizada na sua estrutura técnica por sucessivos governos e administrações, viveu à beira do colapso. Está a renascer. Vai ser mais pequena, menos internacional, com menos capacidade de criar um mundo empresarial de "faz de conta" como no passado.
Em 2016 o Departamento Central e Investigação Penal inicia uma investigação que vai determinar se a gestão da CGD teve ou não contornos criminais. Na mira do Ministério Público está o período que vai de 2005 a 2016, com anos sucessivos de prejuízos e perdas superiores a 4 mil milhões de euros. Numa investigação prodigiosa, Helena Garrido mostra como foi possível esse desmando e como os contribuintes vão pagar caro os erros dos gestores e políticos que meteram a mão na Caixa.

Autora:

Helena Garrido é jornalista na área de economia e finanças desde 1986. Com formação em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, iniciou a sua carreira no Jornal do Comércio. Passou pelo EuropeuDiário de Notícias, Expresso, Público, Diário Económico e Jornal de Negócios. Exerceu funções de subdirectora no Diário Económico e de directora-adjunta no Diário de Notícias e foi directora do Jornal de Negócios. É professora auxiliar convidada de Jornalismo Económico na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, colabora no Observador e é analista e comentadora na RTP e RDP.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-07-04 22:16
Eu, que fui empregado da Caixa Geral de Depósitos de 1973 até à aposentação em 2005, mais de 32 anos, acompanhei a evolução da Instituição e passei por muitas fases da sua vida. Mas estava longe de saber aquilo em que ela se transformou depois da minha saída. Até ler este livro.

Desde sempre, a sua imagem junto do cidadão português era de um "mealheiro" sólido, uma Instituição em que guardava as suas poupanças para a velhice e sabia que ali estavam seguras. Na sua ingenuidade, até havia quem pensasse que as notas que lhe confiava ficavam guardadas num cofre até ao dia em que lhe fosse necessário reavê-las. Chamar "Banco" à "Caixa" era quase uma ofensa. Essa coisa dos "bancos" de que os funcionários públicos, os operários, os agricultores e os pequenos empresários desconfiavam, é que faziam negociatas com os magnatas, os ricalhaços que viviam do suor dos pobres, a quem exploravam.
Tudo começou a mudar a partir do grande desenvolvimento da construção civil na década de 60 do século passado (quem se lembra do J. Pimenta?), com o início da mecanização da agricultura, a forte emigração para França e a fuga das populações para as grandes cidades. Foi necessário construir muitos milhares de apartamentos e a periferia das grandes cidades tornou-se progressivament e em dormitórios. A necessidade de financiar a venda desses apartamentos levou o Governo de Salazar a dar o exclusivo desse negócio a três instituições da sua confiança deliberadamente não chamadas "Banco": um negócio de longo prazo, garantido pela hipoteca dos apartamentos, seguro e com uma função social. A Caixa fazia parte desse conjunto.

A nacionalização da Banca, na sequência da Revolução do 25 de Abril, veio baralhar as cartas, integrar estas denominadas "Instituições Especiais de Crédito" no universo da Banca, com os mesmos direitos e deveres. E foi aí que a Caixa começou a mudar, pouco a pouco, o conceito que tinha junto do povo português. Começou a lançar-se em tipos de negócio em que não era experiente e, pior do que isso, tornou-se numa "correia de transmissão" dos interesses políticos dos governos em exercício, financiando negócios que interessavam à imagem que cada Governo queria deixar, especialmente depois da reprivatização da Banca. Para além disso, a sua gestão tornou-se numa espécie de forma de pagamento aos políticos quando deixavam a esfera do poder, pelos seus bons serviços prestados ao seu Partido, tal como as outras Empresas Públicas e Institutos Públicos. A escolha dos gestores passou a ser feita não em função dos seus méritos para a função, mas da garantia que davam de ser obedientes ao Governo em exercício.

A situação começou a ter alguma gravidade a partir dos governos de Guterres (com a utilização dos dinheiros da Caixa para destruir o Grupo Champalimaud) e, de acordo com o que se começa a saber através dos processos movidos pelo Ministério Público, atingiu o inenarrável a partir de 2005, com os governos de José Sócrates. Se atentarmos bem, a derrocada da Caixa e a sua quase falência centra-se nas consequências de quatro negócios multimilionário s, onde a Caixa enterrou milhares de milhões de Euros, todos eles iniciados em 2006 e 2007: o caso dos "plásticos" La Seda/Sines/Artl and; o caso do "imobiliário" Vale de Lobo; o caso dos "cimentos" Cimpor/Camargo Corrêa; e o caso dos "telefones" PT/OI/Vivo. Estes dois últimos com fortes ramificações no Brasil e na ligação dos regimes Sócrates/Lula da Silva.

A autora centra a temática deste livro nestes quatro casos e explica pormenorizadame nte como começaram, as suas motivações políticas, a eventual corrupção das pessoas envolvidas e o seu desenvolvimento até terminar na recente limpeza dos passivos gigantescos da Caixa, com recurso à injeção de capital e às exigências da UE para a autorizar, nomeadamente a redução de balcões, venda de todos os ativos no estrangeiro e diminuição gigantesca de encargos, conseguida especialmente através da redução de pessoal em cerca de um terço. Estas medidas vão retirar peso à Caixa no mercado e torná-la num Banco muito mais pequeno, com pouco peso e incapaz de exercer o papel de influenciador no mercado bancário que lhe foi reconhecido até agora.

A autora fala também na "novela" que foi o caso António Domingues, com o Governo a meter os pés pelas mãos e a desdizer-se mais de uma vez, nomeadamente no caso da "apresentação de rendimentos" pelos membros da Administração, culminando na sua saída intempestiva e a nomeação de Paulo Macedo. Perdeu-se aqui, diz o livro e eu concordo, uma oportunidade soberana de tornar a Caixa imune às influências partidárias, uma vez que todas as condições impostas por António Domingues iam no sentido da total autonomia da Caixa e a sua gestão empresarial, como qualquer outro Banco. Ao voltar atrás e ao ser nomeado um ex-ministro com uma carreira política de maior relevo do que na banca, é legítimo desconfiar de que seja desta que a Caixa deixe de ser o que tem sido nas décadas mais recentes.

Enfim, um livro com muita informação, que vem esclarecer muita coisa que se diz sem se saber bem do que se está a falar e que mostra bem como se chegou na Caixa de "maior banco português" ao pequeno banco que agora passa a ser.
 

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