Seja Feita a Tua Vontade

FaceBook  Twitter  

 

 

Autor: Paulo M. Morais
Género: Romance
Edição: Jun/2017
Páginas: 136
ISBN: 9789897417443
Editora: Casa das Letras

 

 


Romance finalista do prémio Leya em 2015

Um médico octogenário, cansado de lutar contra os bichos que imagina devorarem-lhe o corpo, decide que não quer continuar a viver. Metódico e informado, prepara a sua morte: ocupa um quarto da casa, comunica à família as suas intenções e deixa, pura e simplesmente, de se alimentar. Apesar do choque inicial que a notícia provoca, um dos netos resolve ajudá-lo a cumprir a sua última vontade. Visita-o diariamente, e as horas que passam juntos a rememorar o passado e a conversar sobre os tempos que se aproximam constituem uma terna despedida, uma espécie de luto pacificado.

Mas eis que, numa reviravolta completamente inesperada, o médico acorda um dia com uma súbita vontade de viver… E essa atitude intempestiva, em lugar de representar um alívio, abala a já conquistada serenidade, dando lugar a uma convulsão em que mesmo o afecto é posto em causa.
Num momento em que a eutanásia e a qualidade de vida dos mais velhos estão na ordem do dia, Paulo M. Morais constrói em Seja Feita a Tua Vontade uma narrativa fulgurante que nos leva a pensar como a família - e a sociedade - se deve estruturar para lidar com a morte próxima de um dos seus elementos.

Deste autor no Segredo dos Livros:
Voltemos à Escola
O Último Poeta
Revolução Paraíso

Autor:

Paulo M. Morais nasceu em fevereiro de 1972. Cresceu nos arredores de Lisboa entre futebóis de rua, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos. Licenciou-se em Comunicação Social e cumpriu um sonho de juventude ao fazer crítica de cinema. Depois pôs uma mochila às costas e viajou à volta do mundo. No regresso, especializou-se em textos sobre gastronomia e turismo, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro. Atualmente, trabalha na tradução de romances e livros de não-ficção.
Vive deslumbrado pelo ofício de descobrir histórias. Em 2013, publicou Revolução Paraíso (Porto Editora), romance passado no pós-25 de Abril. Seguiu-se a distopia O Último Poeta (Poética Edições, 2015). Em 2016, publicou Uma Parte Errada de Mim (Casa das Letras), livro que junta memórias autobiográficas e reflexões sobre a vida no relato do tratamento de um linfoma, e, em 2017, Seja feita a tua vontade, romance finalista do Prémio Leya 2015 (Casa das Letras).

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2019-02-21 18:05
Seja feita a tua vontade é um romance, mas, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a nossa sociedade atual e a forma como encara os idosos, geralmente considerados um fardo que vem prejudicar a já difícil situação pessoal, familiar e profissional dos filhos, assoberbados com dificuldades económicas, corridas diárias para o trabalho, lida da casa e problemas com as crianças e os adolescentes da família. Mas não foi assim nas sociedades antigas e não é assim noutras sociedades do nosso tempo. Porque tal acontece? Porque não continuam os idosos a ser considerados um repositório de tradições, uma ponte para a passagem da cultura às gerações seguintes? Porque não são o suporte afetivo dos netos? Muitas questões que merecem uma resposta, mas não a encontram nas decisões de quem está à frente dos governos dos países da chamada Civilização Cristã Ocidental ou o "Velho Mundo".

Neste livro, há um avô octogenário e um neto de meia idade, dos quais nunca saberemos o nome. Mas sabemos que o avô foi médico-militar e o neto é escritor. O avô tem uma doença grave (pareceu-me cancro de próstata) e está a ficar demente. Acha que o seu corpo está a ser devorado por bichos e não está na disposição de esperar que eles terminem o seu trabalho. Por isso, decide deixar de se alimentar e esperar pela morte. A esposa e restante família, assim como colegas e amigos, acham aquilo ridículo e que se deixe de tretas. Mas o neto fica verdadeiramente preocupado com o avô e mantém um diálogo com ele ao longo dos dias em que o seu organismo se vai debilitando, mercê da sua "greve de fome". Ao longo desse diálogo, vemos desfilar recordações, inclusive as da sua passagem pela guerra em África (e outras guerras), o acompanhamento que não deu aos filhos criados pela mãe, o seu desencanto com a classe médica atual que só prescreve exames ("Achas que eles já não sabem (ou não querem) observar, escutar, apalpar" - pág. 60). Ao longo destas conversas, o neto vai fazendo um luto antecipado, enquanto se prepara para o inevitável: a iminente morte do avô.
Mas, inesperadamente , quando todos já aguardam o desenlace final, certo dia levanta-se convicto de que já conseguiu matar os bichos com a sua falta de alimentação e já não quer morrer. Não é o caso, porque continua idoso e doente, e vai acabar por morrer, deixando ao neto uma caixa, onde guardou as suas recordações de uma vida sofrida, pois acha que só ele lhes vai dar valor e as vai compreender.

Espero não ter feito muito spoiler, porque a história tem muito mais do que isto. É um livro para ler com vagar, assimilando cada frase como uma sentença moral, meditando cada cena como um ato de amor. Acredito que todos os netos amam profundamente os avós e necessitam desesperadament e da sua presença, da sua paciência, da sua disponibilidade , dos seus conselhos e todos os avós necessitam do carinho, do amor incondicional, da vivacidade e da alegria dos seus netos. Mas ambos têm cada vez menos possibilidade de ter acesso a tais benefícios.

Fala-se hoje muito de eutanásia, do direito de escolher como e quando se quer morrer, de testamento vital. Por outro lado, começa também a falar-se do estatuto do cuidador informal, de dar condições às famílias para manterem os idosos em casa, mas proporcionando- lhes um envelhecimento digno, de criar centros de dia ligados a creches e jardins de infância, onde avós e netos possam interagir, com todas as vantagens recíprocas que daí podem advir. Este livro pode contribuir para uma maior consciencializa ção destas matérias.

Quando disse ao autor que ia ler o livro, por me estar a começar a sentir velho, ele contrapôs que é um livro para todas as idades. E é, de facto, como se infere do que acabei de expor, pelo que aconselho a sua leitura a todos, sejam avós, pais, filhos ou netos.
 

Tem de iniciar sessão para submeter o seu comentário.

Últimas Opiniões

  • 25 de Abril, Corte e Costura
    Este livro é exatamente o que eu esperava dele: uma sucessão de quadros em que se ridiculariza a ...
  • 28.04.2019 21:03
  • A Aluna Americana
    Este é o mais recente romance de João Pedro Marques, autor de, entre outros, "Uma Fazenda em África" ...
  • 25.04.2019 20:42
  • O Último Cabalista de Lisboa
    Consegui, finalmente, ler este livro que foi o primeiro romance de Richard Zimler. Publicado em 1996 ...
  • 07.04.2019 23:56

Últimos Tópicos

Uma Pequena Palavra...

"Como um dia alguém me ensinou, os bons amigos são como os livros, nunca partem de vez. Sempre ficam no nosso coração."
Alberto S. Santos, in Para lá de Bagdad