Trilogia da Mão - Amadeo, Guilhermina, Rosa

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Autor: Mário Cláudio
Edição: Abr/2016
Páginas: 288
ISBN: 9789722059749
Editora: Dom Quixote

 

 

 

Reúnem-se no presente volume os romances que formam a Trilogia da Mão, meditação sobre as raízes míticas da portugalidade, contempladas por um olhar enamorado do Norte recôndito.
Em Amadeo - que venceu em 1984 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores - acompanha-se o percurso do pintor Amadeo de Souza-Cardoso, entre as terras de Amarante e a cidade de Paris dos inícios do século XX.
Em Guilhermina, estamos com a violoncelista Guilhermina Suggia, vivendo com ela o Portugal e a Inglaterra da primeira metade de Novecentos.

Em Rosa, penetramos no universo da louceira Rosa Ramalha que, na sua olaria caseira dos arredores de Barcelos, haveria de criar, com o barro, um estranho país de reis e de bichos, de santos e de monstros.
Paralelamente ao itinerário das três figuras centrais, todavia, eis que uma outra história se vai desenvolvendo, povoada por personagens que, com cada um dos «biografados», apostam numa certa modalidade de jogo da cabra-cega, entretecido de inteligência e manha.

Pode ler as primeiras páginas aqui.

Autor:

Mário Cláudio nasceu no Porto. Ficcionista, poeta, dramaturgo e ensaísta, é formado em Direito pela Universidade de Coimbra, diplomado com o Curso de Bibliotecário-Arquivista, da Faculdade de Letras da mesma Universidade, e Master of Arts em Biblioteconomia e Ciências Documentais, pela Universidade de Londres.É autor de uma vasta e multifacetada obra que abarca a ficção, a crónica, a poesia, a dramaturgia e o ensaio e se encontra traduzida em várias línguas. Foi galardoado com, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores-DGLAB (atribuído duas vezes), o Prémio PEN Clube, o Prémio Eça de Queiroz, o Prémio Vergílio Ferreira, o Prémio Fernando Namora e o Prémio Pessoa, sendo igualmente titular de várias condecorações nacionais e estrangeiras.

Comentários  

 
#1 Sebastião Barata 2018-10-11 22:10
A "Trilogia da Mão" é um conjunto de três livros agora editados num volume só. Nesta trilogia, Mário Cláudio conta quatro histórias, não três. O primeiro é dedicado ao pintor Amadeo de Souza-Cardoso; o segundo à violoncelista Guilhermina Suggia; o terceiro à louceira artesanal de Barcelos Rosa Ramalha. Mas o interessante é que, ao longo dos três livros, corre uma quarta história passada na atualidade (note-se que os livros foram escritos no início da década de 80, sendo essa a atualidade - os primeiros anos do pós 25 de abril).

O mais interessante desta obra é exatamente esta quarta história da qual o próprio autor é personagem. Arriscaria mesmo dizer que as personagens centrais de cada um dos três livros são o pretexto para contar a história que percorre toda a trilogia e é, na verdade, a principal e, diria, a única história que Mário Cláudio nos transmite.

É assim que um médico conhecido por Papi, retirado numa velha casa senhorial em Santa Eufrásia de Goivos, cada vez mais viciado em cocaína e dela dependente, teima em recolher dados para escrever uma biografia de Amadeo de Souza-Cardoso que nunca vai conseguir acabar; é seu assistente o sobrinho Frederico que vai tomando conta da Quinta, do tio e do seu trabalho. Mas um acidente acontece e Frederico morre. Felizmente, outro familiar, de seu nome Álvaro, recolhe os papéis de Papi e entrega-os a Mário Cláudio que vai apropriar-se do trabalho de Papi e reescrevê-los.
Ora, é este Álvaro que está obcecado pela vida de Guilhermina Suggia e vai recolher elementos que vão permitir a Mário Cláudio escrever sobre a violoncelista e continuar a história. Descendente de uma família de mercadores, vive uma vida boémia e perde tudo. Só a sua paixão por Priscila consegue meter alguma ordem na sua vida. Acabam ambos por se mudar para a Quinta do tio Papi, onde ele tenta a vida de agricultor sem grande sucesso, enquanto ela vai começando a interessar-se pelo tema que preencherá o terceiro livro da trilogia. Entretanto, Mário Cláudio fica sozinho a reconstruir a vida de Guilhermina.
No terceiro livro, aparece um casal de ingleses aposentados que vêm estabelecer-se na casa do Marão. Papi está cada vez mais alheado de tudo e é Gabriel, o filho do caseiro, a começar a dar nas vistas e, ironicamente, a manter aquela casa viva. Os hóspedes estrangeiros começam a interessar-se pelas figuras de barro de Rosa Ramalha, a oleira de Barcelos. Por sua vez, Priscila encontra nos mesmos bonecos lenitivo para os problemas psicológicos que a vão incomodando. Tudo isto Álvaro vai transmitindo telefonicamente a Mário Cláudio, que dele se vai servir para escrever a história de Rosa.

Sobre a escrita do autor, tenho a salientar três aspetos. O primeiro é a inovação já referida de escrever três livros cada um com sua história, que acabam por ser uma trilogia de uma história só. Outro é o facto de serem três livros com três histórias de artistas: um que pinta, outro que toca e outro que molda; daí o título genérico da "Mão". O terceiro, mas não o menos importante, é não se tratar de três biografias, mas sim de três conjuntos de mosaicos, cada um baseado numa obra ou episódio marcante da vida do artista. No caso de Amadeo, os quadros, no de Guilhermina as partituras e no de Rosa os bonecos.

Achei também de realçar a mudança de estilo, consoante o tipo de arte retratado: mais ou menos erudito, mais ou menos sofisticado, consoante o artista biografado. Por exemplo, no caso de Guilhermina, o autor usou uma linguagem poética e com quase constante inversão da ordem habitual na construção das frases. Um exemplo ao acaso: "E pelo sarcasmo, pela tontaria, se protegia a violoncelista de quem, com honras e privilégios, imperador se intitulava de seu corpo". E, já agora, uma passagem simultaneamente rude e de grande elevação vocabular: "E os loucos símios de Dresde, em circunferência agrupados num pesadelo orquestrante, suas fífias teimariam inserindo na charamela, um traque por final lhes anexando, estrepitoso e de pícaro efeito".

Enfim, um livro talvez aborrecido para quem procura leituras fáceis e que não exijam esforço e reflexão, mas uma leitura agradável para quem procura obras com elevada qualidade literária.
 

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